quarta-feira, 11 de novembro de 2009

in this place you'll feel there's no hurt or sorrow

Queimar a mão na pistola de cola quente dói. Fechar o dedo numa janela dói. Bater a cabeça na quina do guarda-roupa dói. O que mais dói? Acho que tudo dói um pouco. Dói um pouco viver uma coisa muito boa, porque já se sabe que ela vai acabar... Dói um pouco andar na praia porque seus músculos cansam e sua garganta seca. Dói um pouco dar um abraço e ter que soltar. A dor é uma coisa simples, pequenininha, que vai se acumulando e crescendo se você não a apara de vez em quando... Ela não é de todo ruim, tampouco completamente boa. Também acho que ela não é inimiga da felicidade, e sim uma de suas companheiras - pra sentir a felicidade de um ferimento curado, precisamos tê-lo antes, não é?
Apesar disso, ninguém gosta de sentir dor. Ou gosta. Tem gente que gosta. Gente é gente, sempre estranha, cada um diferente dos outros seis bilhões e muitos outros... Eu mesma me confundo um pouco. Não sei se gosto da dor ou desgosto dela. Às vezes ela me faz bem, ou não. Agora meus dedos estão doendo porque me queimei - mas me queimei fazendo uma lembrança que vou guardar pro resto da minha vida. A dor valeu a pena, não valeu? Ela acabou me trazendo felicidade.
Ou alguma coisa assim.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

stuck in a moment you can't get out of

A gente sempre faz as coisas com pressa. Sempre correndo, sempre impacientes, achando que o mundo vai acabar no próximo instante se não fizermos o que está no centro da nossa atenção no momento. É por isso que dizem que a pressa é inimiga da perfeição! Mas acho que não é bem isso... A pressa é nossa inimiga mesmo. Não é bom não ter tempo. Tudo bem que, se soubéssemos administrar nossas horas e minutos, arrumaríamos tempo para fazer qualquer coisa, mas mesmo assim, só de saber que a pressa existe, surge uma vontade de parar no mesmo lugar e esperar, esperar...
Às vezes eu me pergunto o que aconteceria se tivéssemos a eternidade toda para viver, essas nossas vidas de hoje. Continuaríamos com pressa, ou seríamos totais preguiçosos sabendo que o tempo é ilimitado?
Sendo humanos, acho que seríamos mais preguiçosos ainda. Aliás, falando em preguiça, boa hora pra dar uma dormida...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

so i'm sailing through the sea

De vez em quando, bem de vez em quando, eu paro e penso em quanto eu sou privilegiada por morar ao lado do mar. Quando alguém diz "nunca vi o mar", é estranho para mim - como alguém pode não conhecer o que eu conheço há catorze anos?
Agorinha, sentada confortavelmente na minha cadeira, comendo chocolate e tomando coca cola, me bateu uma saudade enorme do mar - que está a menos de 500m de mim - e veio o cheiro das ondas, a brisa batendo no corpo, o sol queimando as maçãs do rosto, aquela sensação de liberdade, da areia roçando nos pés, dos dedos afundando e fazendo desenhos com os pequenos grãos. Será que há, no mundo, alguma sensação como essa? Acho que não. Tenho certeza que não.
Queria estar de férias, colocar meu biquíni, ficar branca de protetor solar e correr até a praia. Afundar meus pés na areia e fazer castelos. Sair correndo no comecinho do mar, molhando tudo em volta, e pular as ondas, fugindo delas. Sentir meu cabelo sendo despenteado pelo vento. Olhar para o mar refletindo o céu azul e saber que eu tenho comigo um pedacinho de uma das maiores riquezas do mundo.
Férias, por favor, cheguem logo!

(post dedicado a Késia Luíse, incluindo a foto ali em cima.
Obrigada por me acompanhar sempre que eu sinto vontade de visitar nosso mar :)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

i don't care a lot for money

Eu sempre fico refletindo quando vou ao supermercado, e não sei exatamente por quê. Acho que aquelas prateleiras cheias de produtos diferentes, com códigos absurdos e preços também absurdos, na maioria das vezes, mostram um pouco as diferenças que existem em tudo. Papo de supermercado, né? Talvez sim. Hoje eu fiquei pensando na injustiça que é eles colocarem prateleiras altas na seção de bolachas. E quando as crianças são baixinhas e não conseguem alcançar (meu caso)? E por que os chocolates ficam sempre na mesma prateleiras, misturados por sabores, cores e odores? Acho que devia ser dividido. Os chocolates deveriam estar entre pretos, brancos, crocantes, ao leite, amargos, com toques de café... E os papéis higiênicos poderiam estar juntos. De certa forma, é só papel mesmo. Perto dos caixas, tem sempre aquelas pequenas prateleiras com tudo quanto é doce, revista e coisas úteis mas inúteis pra sua vida, geralmente com a etiqueta berrante de "promoção", que te convidam a comprar mesmo sem necessidade. No final, tudo isso só reflete o nosso mundo capitalista de uma forma mais próxima da gente, até no pacote gigante de M&M's por R$5,99. Pacote este que eu encaro aqui, pensando em como os chocolatinhos dentro dele são coloridos e estão muito misturados... Talvez, se fossem colocados em lugares separados...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

and i'm back in wonderland like it was yesterday

O que eu escrevo sempre reflete meu humor... Ultimamente, ele tem estado tão cinzento que nem eu mesma me reconheço. Olho para minhas próprias palavras e pergunto o que é essa garota em preto em branco que digita no meu teclado. Quem é ela? Eu não sei. Ela é a parte ruim de mim? Não. Minha parte ruim vive perto da boa - onde uma está, a outra está também. Acho que é como me olhar num espelho, estando colorida no lado da realidade, e me ver em preto e branco do outro lado, uma versão diferente, como se estivesse num negativo fotográfico. Talvez eu seja isso. A diferença entre uma fotografia preta e branca e uma colorida. A diferença entre o fundo da piscina e a superfície da água. Como toda boa humana, eu sou uma contradição. Eu sou eu, mas não sou o tempo todo. Me transformo. Quem sou eu? Quem é a estranha? Eu.
Confuso.

"Meu Deus! Meu Deus! Como tudo é esquisito hoje. E ontem era tudo exatamente como de costume! Será que fui eu que mudei à noite? Deixe-me pensar: eu era a mesma quando eu levantei hoje de manhã? Eu estou quase achando que posso me lembrar de me sentir um pouco diferente. Mas se eu não sou a mesma, a próxima pergunta é: Quem é que eu sou? Ah, essa é a grande charada." (Alice no País das Maravilhas)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

a disney é mais legal, a disney é mais legal!

Eu quero voltar no tempo. Quero rebobinar. Quero colocar minha mão no relógio, e poder voltar os ponteiros, e viver tudo de novo.

Eu quero de novo a ansiedade, o medo, o cuidado, a expectativa. Eu quero o encanto de ver tudo pela primeira vez. Quero passar sete horas sem dormir, não conseguindo fechar os olhos para esperar a chegada, e quero pisar lá novamente, e tirar foto no carpete de entrada. Quero comer meu primeiro lanche, faminta e sonolenta, colocar a pulseira que me acompanharia o resto da viagem, levar minhas coisas para o quarto e procurar coisas para fazer. Quero tomar banho e sair pelo hotel para tirar fotos, na bota gigante, na árvore, no banquinho, na fonte, na piscina, na recepção, na loja... Quero sorrir nervosa para meus companheiros de grupo. Quero dormir e acordar atrasada, ir na Van separada de todo mundo e chegar no Sea World pela primeira vez. Quero ver os golfinhos, ver a Shamu, e quase infartar ao ir na minha primeira montanha russa, Kraken. Quero me arrepender de não ter ido na Manta e depois agradecer por isso, ao perceber que meu cartão de crédito carregado e poderoso não funcionava. Quero chegar no Outlet e ligar chorando pro meu pai, dizendo que não poderia gastar o dinheiro que tanto tinha guardado porque o banco trocou meu cartão com o de outra pessoa. Quero correr que nem louca e acompanhar minhas amigas. Quero ver a Amanda perdendo dois tênis da Nike e depois achando os tais. Quero me apaixonar a primeira vista pelo carinha na loja da All Star e depois lutar contra a máquina de refrigerante. Quero entrar na van, exausta, e sentir vontade de matar a Jamile e o Andrei Sexta-Feira que não paravam de cantar Cocoricó. Quero chegar no hotel, morrendo de cansaço, e conhecer dois ingleses lindos e fofos. Quero passar a noite sem dormir por causa deles, ir para o Universal Studios e me apaixonar pela montanha russa da Múmia. Quero passar mal na frente do Hard Rock e comprar uma blusa igual a da Laís, sem querer. Quero zanzar pelo Citywalk sem rumo, comer no Nascar Cafe e pegar chuva. Quero voltar pro hotel e dormir das três às sete da manhã. Quero não me arrumar para ir no Aquatica e tirar as fotos aquáticas mais legais da minha vida. Quero ir no toboágua de golfinhos sem ver os golfinhos. Quero ir no Planet Hollywood e comer o macarrão mais apimentado da minha vida. Quero acordar e no dia seguinte ir no Epcot pra ter o melhor dia de todos, ouvir o cowboy pedindo pra cuidarem da égua dele e chamar o bebedouro de Moulin Rouge. Quero tirar as fotos mais ridículas e quase chorar na lojinha da Inglaterra. Quero querer dormir durante o show de fogos. Quero fazer amigas durante o jantar especial e depois ir pro quarto delas no hotel. Quero migrar pro quarto dos meninos e encher o saco do Andrei enquanto ele dormia. Quero acordar morrendo pra ir no Animal Kingdom e não achar uma meia decente, e ir com uma que combina com meu short jeans. Quero me assustar naquele brinquedo do dinossauro. Quero ir na Everest e quase morrer do coração na hora da descida de costas. Quero tomar chuva, comer pizza no almoço com os pés boiando na água dentro do meu tênis, e dormir no show da Pequena Sereia. Quero ir no Downtown Disney de novo enquanto todos iam no Cirque du Soleil, e tirar fotos imitando as pessoas, e começar com o "fala português?". Quero pedir pros caras gatos tirarem fotos minhas e das meninas, quero ser cantada pelo loirinho do outro grupo e quero comprar palhetas no House of Blues. Quero deixar de ir no Typhoon Lagoon pra ficar dormindo e andar cinco horas direto, no Florida Mall, gastando todo o dinheiro que eu tinha no cartão novo. Quero andar com o cowboy e o Sexta-Feira, ganhar um DVD de brindes e ser largada na Hot Topic e ficar lá por horas. Quero comprar meu Wayfarer gigante, e depois ir no restaurante brasileiro carregando as Crocs do Sexta, e tomar guaraná, e observar bem de perto a guerra de sal. Quero dormir ansiosa para o dia seguinte, e acordar feliz da vida por ser dia de ir no Magic Kingdom. Quero colocar meu short preferido, carregar completamente a câmera e arrumar meu cabelo como nunca tinha arrumado antes. Quero entrar e quase beijar a Main Street, e me decepcionar com o tamanho do castelo e me surpreender com a beleza dele. Quero morrer de medo no brinquedo mal assombrado, ir no Splash que dá medo, dar risada na mini montanha russa e me divertir vendo o preço dos castelinhos de cristal. Quero deitar na calçada, no sol quente, esperando a parada, usar o Andrei de sofá e sentir vontade de dormir pro resto da minha vida. Quero sair para tirar fotos, esquecer de algumas e comprar o melhor chocolate amargo que existe. Quero guardar o último pedaço e ver o Sexta-Feira passando o restinho do chocolate na minha perna, e depois ele deitando na minha barriga, e o cowboy falando o quanto nós dois combinávamos. Quero ver a Laís, a Amanda e a Shadia morrendo de sono, deitadas comigo perto do bueiro que tinha um cheiro ruim, e nossas tentativas frustradas de mais fotos. Quero ver a parada da noite enquanto o Andrei segurava minha mão. Quero ver o Wishes e desistir de segurar a máquina pra ver o show mais bonito que eu já tinha visto. Quero voltar pro hotel morrendo e ir de pijama pro 5536, jogar Wii, e ser abandonada pela Laís, e escolher o Donkey Kong. Quero ser abraçada e beijada. Quero dormir feliz e acordar ansiosa para o parque mais radical de todos. Quero dormir no caminho pra Tampa e chegar no Busch Gardens frenética, com medo das montanhas russas. Quero ir na Montu e não sentir medo. Quero ir na Kumba e ter certeza de que aquela era a melhor de todas. Quero ir na Gwazi e me sentir numa batedeira. Quero ir na Sheikra pela primeira vez e me sentir a mais corajosa de todas. Quero comer a pior comida de todas, e ir no Splash que me molhou até o último fio de cabelo, e chegar no Walmart com o cartão sem funcionar de novo, e comprar todos os doces que eu vi pela frente. Quero dormir no chão, dividindo travesseiro e lençol, enquanto na cama o cowboy dormia como morto entre Laís e Amanda. Quero ir no Blizzard Beach e me bronzear, e não comer nada e passar mal no último pedaço da fila do maior toboágua do mundo, e descer nele mesmo assim. Quero me arrumar toda pra ir na festa da forma e ficar sentada quase o tempo todo, observando as pessoas e suas danças estranhas. Quero encher o saco do Andrei, morrendo de sono, pra ele ficar acordado comigo até as três da manhã. Quero ficar com raiva dele por ele não ter comprado pra mim uma barra de Wonka, pra recompensar o chocolate que ele estragou. Quero acordar e ir no Hollywood Studios, e ir na medonha torre do terror, e na Rock'n'Roller coaster, pela qual me apaixonei. Quero comprar um Mickey Jedi e arrumar confusão com uma americana na fila. Quero ver o Fantasmic espumando de raiva. Quero voltar pro hotel brava e depois amolecer completamente. Quero que o outro dia não chegue nunca e a ida para o Islands of Adventure demore muito. Quero me bater toda na montanha russa do Hulk, gritar até ficar rouca na Duelling Dragons, desejar até o fundo do meu coração poder voltar lá em 2010 para ver o mundo de Harry Potter, zuar o Sexta e levar o fora mais bonito da minha vida, e sentir vontade absoluta de matar a Fernanda. Quero andar pelo Universal Citywalk, e comprar a Crocs rosa choque, e tomar Starbucks com o Andrei. Quero comprar um moletom do Hard Rock só porque o cara que me ofereceu era lindo, ser coberta para escapar da chuva e voltar para o hotel tentando parar as horas. Quero aproveitar a última noite até não poder mais e dormir, sem querer, bem onde eu estava. Quero acordar com vontade de ficar ali mesmo e evitar ao máximo a hora de dar tchau. Quero querer arrancar meu coração e deixar ele lá, e me despedir de tudo, e comprar mais CDs e DVDs na loja legal e barata. Quero me atrasar no Millenia Mall e ter que fazer o Check-In pra Dallas com um hamburguer na mão, e esperar no maior aeroporto que eu já vi por duas horas, e pegar o vôo mais longo da minha vida. Quero tomar dois Dramins pra não ver o tempo passar e acordar 16 minutos antes do avião pousar em São Paulo. Quero passar pelos portões, pela alfândega, me despedir de todos e voltar pra casa... Voltar pra casa com o sentimento de que foram os melhores quinze dias da minha vida e nada, nunca vai poder superar o que tudo isso significou para mim. Laís, Amanda, Shadia, Andrei, Simon, Ross, Sofia, Ju, Lari, Fabi, Lari, Tia Jô, Gabriel, Gabi, Ana Carolina, Cowboy, Zé, Rafael, Giovani, Lutcho, Kami, Guigo, enfim... Todos aqueles que estiveram comigo e que continuam, de certa forma, até hoje. Obrigada. E apesar de querer tudo de novo, eu sei que adianta... A primeira vez é sempre única, e especial. Essa saudade toda só é a prova de que valeu a pena...

why do I keep hitting myself with a hammer? because it feels good when I stop

Já dizia Meredith Grey, “por que eu fico me batendo com um martelo? Porque é bom quando eu paro”. Porque é bom quando pára, quando acaba. E o alívio só vem com a dor. Vale a pena passar por ela? E se a dor for forte demais e me dilacerar? E se ela nunca acabar? E se eu não agüentar me bater?

Dor. Precisamos dela. Acho que precisamos dela mais do que precisamos do alívio. Queremos a dor pra nos sentir vivos, sozinhos, como se fossemos as últimas pessoas no mundo – porque quando somos resgatados, quando ficamos felizes novamente, esse sentimento supera tudo que deixamos para trás. Quantas vezes não sofremos por um jogo de futebol só para gritar quando ele ganhar, no final? Quantos filmes já não vimos, agoniados, só para no final tudo ficar feliz para sempre? O bem e o mal andam de mãos dadas. E nós? Nós andamos no meio dos dois. Uma mão para cada um. Só que, às vezes, somos mais puxados para um lado. Para, depois, sermos puxados para o outro. Sempre.

Ultimamente, tenho andado de mãos dadas com o mal. Tenho deixado-o bem próximo de mim: mágoa, raiva, descrença, sofrimento, ciúme. E o caminho que estou seguindo tem uma parede de vidro no meio: consigo ver a hora em que vou me soltar totalmente do bem. Para continuar e chegar até o fim da parede, vou precisar usar cada gota de força que tenho. Vou precisar ignorar o mal, que vai me pedir para ficar ali mesmo, parada. Mas ao chegar à divisão, eu me pergunto... Vale à pena?

Essa pergunta ecoa. Vale... Vale? Vale? Eu tenho medo. Eu quero soltar a mão do mal e seguir com o bem, pelo outro lado da parede. Mas não consigo. Eu... Não... Consigo.

Se o bem me puxasse, eu conseguiria... Mas ele anda distraído ao meu lado, tocando apenas a ponta dos meus dedos. Ele anda de cara virada para mim, e não ouve quando chamo sua atenção. Por que será que ele não me ouve? O que será que eu estou fazendo? Será que ficar me martelando é uma coisa ruim, e ele fica bravo quando vem só depois de eu me machucar propositalmente?

É uma contradição. O bem e o mal. Eu, e eu. Só. Nós três, e o resto do mundo, e o meu mal em forma física. Por favor, por favor, tirem o martelo da minha mão.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

I'm done with awkward situations, empty conversations

Olhos nos olhos. Primeiro passo. Era só não desviar – e arrumar coragem para começar a falar.
- Olha, eu... – ela vacilou. Seus olhos encontraram o chão e o ar preso em seu peito se soltou rapidamente. – Eu preciso falar com você.
- Eu sei. Por isso você me chamou aqui. – ele arqueou as sobrancelhas. Encarava agora a bochecha dela, que adquiria lentamente um tom rosado de quem estava completamente sem graça.
- É. – ela fechou as mãos em punho, para que parassem de tremer. – Eu não quero piorar essa situação, mas eu não consigo mais ficar quieta.
Pela primeira vez, ele perdeu o ar confiante e o pequeno sorriso em seus lábios vermelhos se desfez. Ela levantou a cabeça.
- Eu sei dos seus planos. Eu sei o que você pretende fazer. E eu não quero te impedir, eu não quero nem de longe te incomodar ou atrapalhar, mas não posso ver você fazendo isso sem que saiba de algumas coisas.
Silêncio.
- Primeiro... eu não quero que você faça isso, nada disso. Do fundo do meu coração, eu quero que você desista e abra um pouco seus olhos. Só um pouco... Eu sei que você esteve cego por muito tempo. Mas não se encante com o que ver primeiro. Espere até ver o que tem depois. – ela sorriu. – Eu sei que não faz sentido... Por enquanto. Mas você vai entender. Veja, - suas mãos voltaram a tremelicar, estiradas no chão gelado. – Eu faço com você o contrário do que gostaria de fazer. Você me conhece ao avesso. Você me tirou a oportunidade de ser quem eu sou. Mesmo sem saber, por sua causa, eu me escondi nessa armadura sempre que você está perto. E agora... Eu estou tirando essa armadura, essa máscara.
Ela procurou os olhos dele, incerta, e eles não expressavam nada, embora tivessem uma intensidade que acelerou seu coração que já batia desgovernado.
Já que tinha começado, precisava terminar.
- Quando eu te bato, eu quero te abraçar. Quando eu zombo o que você fala, é porque eu quero contar algo do meu dia para você. E isso é simplesmente a coisa mais óbvia do mundo. Você nunca percebeu, nunca desconfiou...?
- Eu... – ele procurou palavras. Não achou.
- Não precisa falar, eu ainda não terminei. – ela tomou fôlego. – O que eu quero dizer é que isso já está acontecendo há tempo demais e está me deixando cada vez mais nervosa. Me desculpa se você gosta disso, mas eu simplesmente não posso agüentar mais um dia de luta contra quem eu sou e quem eu queria ser. Então eu estou aqui, de coração aberto, te dizendo o seguinte: eu gosto de você. – foi impossível manter o olhar. Havia muito para falar, e muita vontade de sair correndo. – Eu gosto do seu cabelo, das suas roupas, do seu perfume... Eu gosto da sua voz, do seu jeito, da sua risada. Eu gosto quando você parece gostar de mim – gosto do seu abraço, do seu sorriso para mim, de você me contando suas histórias. E eu só percebo isso quando te perco. Dessa vez, eu sei que é definitivo, por isso estou falando tudo o que sinto, e penso... Eu não quero te atrapalhar. Eu não quero que você se sinta obrigado a algo, que você queira ser educado ou cavalheiro, eu só quero que você saiba. Porque agora sim eu sei que você fará suas decisões em plena consciência de que não precisa correr para a primeira coisa que vê porque é a mais segura... E sim que, se você cair, tem algo para te segurar. Algo que você não vê. Não vê, e nunca viu... Aliás, viu, mas não enxergou. E deixou passar, porque ainda estava cego. A partir de agora, não vou mais te incomodar. Não se preocupe comigo. Eu sei que você não vai. Tchau, então. – ela se levantou.
E ele levantou a voz, e disse algo, mas ela não quis ouvir. Finalmente se soltara do mal.


Nos sonhos.

moving on with the rest of your life starts with goodbye

Às vezes eu queria transformar minha vida num computador gigante e apertar o “Delete” em algumas coisas. Algumas muitas coisas. Queria ter uma lixeira, e descartar o que não é necessário – depois, se for preciso, apagar da lixeira e nunca mais ver aquele arquivo de novo. Deletar pessoas que, quando colocadas na balança do positivo e do negativo, ficaram no vermelho.

Eu queria deletar todas aquelas pessoas que me fazem mais mal do que bem. Diferente das que só fazem mal, são aquelas que ainda me importam. E eu me machuco. Muitas vezes parece que eu caio no chão, ralo o joelho e as mãos e não consigo levantar... E ao invés de me ajudarem, ficam olhando enquanto eu estou aberta, sangrando e chorando, arrumando um jeito de me consolar.

Estou cansada de pessoas que fazem com que eu tropece e me rale no chão. Teoricamente, devemos sempre estar perto de pessoas que nos fazem bem... E parar de insistir naquelas que fazem mal. Tem pessoas que tropeçariam também e se machucariam, mas estariam ali. Só para não me deixar sozinha. Tem aquelas que parariam, e estenderiam a mão para que eu levantasse. As que passariam reto, meu machucado não fazendo diferença alguma. E as que veriam, as que poderiam me consolar, mas dão uma olhada e saem andando.

Desse último tipo de pessoas, eu já estou farta. Eu não sou um robô. Um computador, tampouco. Eu sou feita de osso, carne, pele, cérebro e coração – o conjunto todo. Apesar de tudo que faço para esconder, eu também tenho sentimentos. Quando eu caio no chão, me machuco. Quando brinco com fogo, me queimo. Quando mergulho em algo fundo demais para mim, me afogo. É assim que tem que ser. É assim que é. Se o ruim já faz parte da minha vida – felizmente, pois só assim eu sei o que é bom – isso quer dizer que eu não preciso de mais disso. É hora de cortar o mal pela raiz.

Chega. Eu cansei.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

so I can see how badly this will hurt me

Fim. O fim, às vezes, é bom. Às vezes eu fico feliz de saber que algumas coisas vão terminar. Mesmo sendo egoísta, é um alívio saber que nada dura para sempre, nem as coisas boas, muito menos as ruins. Se nada tivesse fim, seria... bom, não teria um começo. Seria sempre a mesma coisa. E isso seria estranho, e tedioso, e parado demais. Quase como viver em preto e branco. Embora as cores possam também nos chatear e nos irritar, são elas que colorem nossas vidas, tão certamente que nem paramos para observá-las.

Finais são assim. Eles estão aqui e ali, escondidos aos nossos olhos, e nós mal percebemos. Mas são eles que fazem nosso dia-a-dia: o fim de uma noite, o começo de um dia. O fim de um banho, o começo de uma parte mais cheirosa do dia. O fim do sono, o acordar. Sempre final e depois começo. Não gosto de pensar em começo e depois final. Não faz muito sentido.

Na verdade, nada faz muito sentido. Fim.